Maioral na Maratona de NY !!!

dezembro 9, 2011 | Em: Corridas

É pessoal, fazer uma maratona na big apple é coisa de gente grande … Sonho de muitos atletas é uma das maratonas mais disputadas do mundo, tanto que funciona por qualificação (tempo em outras maratonas ) e com sorteio apenas, daí dá para perceber o drama . Mas, o mais emocionante dessa prova definitivamente é a vibração e a energia que a platéia traz e que comparece em peso em todo o percurso.

Ela ocorre no começo de novembro, então é frio demais … haja chocolate quente …

O Rafael Maioral se preparou (e muito! ) para essa prova e foi lá realizar um sonho . Passou por alguns percalços no caminho : sua mala com seu uniforme e tênis foi extraviada (teve que comprar tudo novo) e ficou muito doente, tomou até antibiótico. Mas, mesmo assim e com toda aquela energia do lugar tudo ficou para trás. Ele escreveu um depoimento e disse que se estivesse muito comprido poderia editar, mas eu achei tão legal que resolvi publicar na íntegra, ele consegue nos passar um pouquinho o que é participar dessa prova. Bom, para quem conhece esse cara eu nem preciso dizer que fez um tempaço … foi um dos 5 primeiros brasileiros a cruzar a linha de chegada, e olha com sorriso no rosto…2:54:50 Uau !!!

Parabéns Rafael pelo grande feito !! Muito sucesso !!

“O dia da maratona começou de madrugada. Mais precisamente às 04h45 da manhã em Manhattan. Acordei cansado, evidente. Dormi mal, vinha de uma semi-gripe e de muitas pernadas por NY.

Estava me sentindo indisposto e minha ideia de tomar café bem cedo no café 24h perto do hotel não deu certo, porque saímos em cima da hora para buscar o ônibus e decidi não arriscar.A situação começou a melhorar no ônibus. Lá fiquei sabendo que haveria um café da manhã para os corredores no local da largada, e além disso o Douglas (amigo que fiz em NY e também corredor) me ofereceu uma pílula de cafeína que me deu ânimo. Chegamos 07h30 no local de largada. 1h30 de trânsito, em sua maioria na ponte que liga Manhattan a Staten Island. Estrutura enormes. ônibus enfileirados (foram 2.500 fornecidos pela organização da prova), muita gente e muito espaço. E uma grande estrutura! Tomei café e pão-donuts de graça do Dunkin Donuts o que me deu grande ânimo. Deixei as coisas no guarda-volume sem nenhuma dificuldade e com pouquíssima fila apesar do ENORME número de corredores.

E comecei a me preparar para a prova. Ainda cansado, mas cheio de adrenalina. O horário foi se aproximando. Ainda agasalhado, tomei um gel, mais um que a Powerade entregou por lá, mais uma cápsula de taurina e cafeína. Estava pronto. Enfileirados para a largada, maravilhosa, na ponte que liga Staten Island a Brooklyn. Tudo bem planejado pela organização, desde o momento de entrar no Corral (fechou 08h55, 45min antes da largada) até o momento de proceder para a largada. O hino americano emocionou. E o tiro foi dado. Um minuto depois, passei pela linha de largada. Um minuto depois de passar pela linha de largada, começava a correr efetivamente. A maratona havia começado. O que eu poderia fazer?

A primeira milha da corrida passa pela Verrazano Bridge, que liga Staten Island ao Brooklyn. Acontece que ela se dá numa subida relativamente íngreme. Como já havia perdido cerca de 01 minuto em que não conseguia correr, forcei o ritmo na subida para recuperar esse 01 minuto; Passo a primeira milha em 07:18; em seguida, trecho de descida em que efetivamente voei vendo Manhattan ao fundo. Os proximos 3,6 km eu faço em 12’38; passo a marca de 5 km a 19’56 (na verdade, algo próximo de 19’00 devido ao 1 minuto caminhando na largada). A essa altura já havia chegado no Brooklyn. De toda a maratona essa foi a parte mais mágica. A energia do povo nas ruas é algo inacreditável, e juntamente com os últimos quilômetros no Central Park com certeza será minha maior lembrança dessa maratona. Corri curtindo como nunca e me sentindo um atleta muito especial. Passo por cartazes escritos como: “Run like you’ve stole something”(corra como se você tivesse roubado algo) “Run like hell” “you can do it” “Pain is temporary, pride is forever” (dor é temporária, o orgulho para sempre). Além de muitas mensagens particulares a alguns corredores e muitos gritos de Brasil, Itália, França, Usa, etc. Eu corri e pulei, e gritei Brasil como nunca.Bati na palma da mão de crianças que a estendiam como se fôssemos heróis, ídolos. Mal vi os quilômetros passarem. Mas estava rápido. Passo a marca das 05 milhas – 8,072 km em 31’49, e as 06 milhas em 38’12 (9,6 km). A marca de 10 km passo em 39’36 oficiais, ou seja, na casa dos 38 minutos ‘corridos’.

A essa altura da prova estava me sentindo muito bem. Subindo e descendo as ruas do Brooklyn e me divertindo com aquele momento mágico de pessoas pelos dois lados. Meu melhor momento foi mesmo do 10 ao 15. Corri esses 5 km em 19’27, fácil, passando a marca de 15 km em 59’04. No meio do percurso muitas bandas, e um som de muita qualidade!

A grande reta do Brooklyn termina na oitava milha, isto é, pouco antes do 13 quilometro. Começa então um trecho muito bacana com mais curvas; Passo a décima milha (16,1 km) em 1’03’21, próximo de 3’57/3’58 por km, ritmo que manti durante todo esse percurso. Caiu um pouco na subida da 11 milha (6’36), voltou a cair na descida da décima segunda (6’23). A marca dos 20 km: 1h19’10. A essa altura estava mantendo uma previsão de terminar em 2h47. Estava me sentindo muito bem a esse momento.

O grande divisor de águas da prova foi realmente a ponte que separa Brooklyn do Queens. E foi um momento muito marcante pois foi a passagem de meia-maratona. Uma subida muito íngreme que me fez pensar pela primeira vez que estava cansado. O 21 km eu passo em 3’40, uma passagem bem forte; mas os 100 metros seguintes para fechar 21,1 já passo em 46s devido à forte subida, passando a meia em 1h23’37 e uma previsão ainda de 2h47. A partir daí a maratona ficou muito mais díficil. Outro momento marcante foi chegar em Manhattan: senti frio na Queensbooro Bridge, pois corria-se por debaixo da ponte, sem sol; é aí que atingo a marca de 25 km em 1h39’54, apenas 06s acima do ritmo de 4 minutos por km. Foi aí que percebi que seria praticamente impossível chegar em 2h48, pois não conseguiria perder apenas 06s até a chegada. Chego em Manhattan já debilitado mas com o ânimo elevado pois já via muita gente nas ruas quando me aproximo da primeira avenida e 16 milha. Consigo alcança-la em 1h43’06.

A partir daí, uma longa reta pela primeira avenida. E o ritmo, claro, caindo: na passagem de 30 km, estou com 2h00’45, ritmo já acima dos 4 min/km. Os últimos 12 km eu fecharia a uma média de 04’30 cada km! Após o final da primeira avenida chegamos ao Bronx. Lá fazemos a curva de retorno a Manhattan, com bandas e crianças especialmente negros como não poderia ser diferente nesse distrito de Nova York. É nesse distrito que penso que a maratona finalmente começou ao passar pela 20 milha, o equivalente a 32,180 km. Passo em 2h10’15″. Penso que faltam apenas 10 km.

Esqueço a marca de 2h48. Começo a ficar preocupado com as 03 horas. Mas penso que vou conseguir. Desde a passagem do 30 km que penso nisso. Penso que está tranquilo: mantendo um ritmo de cerca por 4:50 seria o suficiente, e mesmo bastante cansado estava conseguindo manter uns 30s melhor que isso. Não posso fazer acima de 3h de jeito nenhum; tudo que treinei nessa temporada foi muito mais do que quando fiz 2h59 na França, em maio de 2010.

É no 30 km que tomo a segunda pílula de cafeína, o que me lembrou até o tempo na França; minhas mãos estão duras! Seria o frio? A falta de sal? A milha 21 faço em 07’32, e ritmo despencando. É a Madboro bridge, separando Bronx de Manhattan. Agora, a quinta avenida para a contagem regressiva. Já enxergo pouca coisa. Já lembro de pouca coisa. Já estou cansado demais. Vejo um parque a frente. Já é o central park? Não, é apenas o pequeno Marcus Garv memorial park. Passo o 35 em 2h22’35, e a 22 milha Quero a chegada logo! Vamos margeando um parque do lado direito. Agora sim, acho que é o central park! E é mesmo. Passo a 23 milha. Penso que faltam pouco menos que 3 km e estou com 2h31; mesmo que quebre muito fecho abaixo de 3h.

Vejo cada vez mais pessoas. Há uns 10 km vou correndo muito próximo de uma americana de panturrilhas muito fortes e corridas muito coordenada. No central park fica muito nítido o grito de US enquanto corro alguns metros atrás dela. Penso que deve ser uma americana sub-elite. Mas estou cansado demais para pensar nisso. Preciso do incentivo das pessoas. Já não tenho forças para pular, gritar Brasil como no Brooklyn. Algumas pessoas gritam para mim. Não demonstro muita reação. Devo parecer antipático. Começo a emitir sons de esforço. Procuro ficar perto do público para que percebam e me incentivem. Ouço um grito de Brasil. Faço uma pequena curva no parque. 24 milhas (2h38). Estou fazendo cada milha por volta dos 7’30. Estou esgotado. Mas não vou andar. Treinei muito para isso. Não escuto mais música já fazem uns 5 km pelo menos. Não quero música. Preciso do carinho do público. Preciso da emoção que é correr aqui. O percurso é muito duro. Mas não deve faltar muito. Não pode faltar muito. 40km. 2h45’05. Estou 05 minutos acima do tempo que queria. Mas não importa. Eu só quero chegar. Continuam os gritos de USA. Central Park. Eu passei por aqui no trote de sexta. Eu estou no lugar onde o mundo todo está correndo. 25 milhas. 2h46’09. Falta um tiro de 1.500. Quantos desses eu fiz nesse ano? Não tem como eu não conseguir. Quero abrir os braços e esboçar um sorriso para comemorar. Mas a verdade é que é muito cedo para isso. Ainda não consigo. Quando vejo a placa de 800m, reclamo para mim mesmo. Oh God, achava que faltavam apenas uns 500m. Não estava preparado para isso. Mas, logo a frente, aquela curva que para mim já se tornou familiar pelos últimos dias. É a curva da chegada. Passo por ela. E aí eu vejo: faltam 400m. Avisto as arquibancandas. Agora sim. Agora é hora de abrir o sorriso e levantar os braços. Há muitos corredores em volta. Fiquei entre os 500 primeiros, será? Não importa. Agora é hora de abrir os braços. Do sorriso. É hora de tornar esse momento para sempre. Vejo a linha poucos metros da minha frente. Me posiciono bem ante outros corredores para a foto. É o sorriso. São os braços abertos. É o final. É a vitória. Após isso, uma longa e inesperada caminhada até a do guarda-volumes. Mas não estou aguentando. Paro antes para receber tratamento médico. O tratamento é muito atencioso. Médicos, estudantes de fisioterapia e medicina. Várias pessoas me atendem. Estão preocupados comigo. Recebo massagem. Sal. Estou muito fraco. Gatorade. Mais sal. Ameaço levantar, mas ainda estou muito fraco. Deito de novo. Peço mais 05 minutos. Depois, apenas mais um. Eles são muito, muito atenciosos. Mas não quero que deixem de atender outros corredores que estão num estado pior. Essa prova é muito dura. Vou caminhando lentamente para a área de retirar o guarda volume. Retiro. Vou repondo aos poucos as energias. não consigo encontrar ninguém na chegada. Sento um pouco num banco do Central Park. Curto o momento e vejo outros chegando. É aí que percebo que um momento muito mágico havia terminado.” Rafael Maioral

Emocionante ,não? Gostou ? Então deixe seu recado no botão de comentários ….

6 Respostas para Maioral na Maratona de NY !!!

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Daniel Alberto Bonillo

dezembro 9th, 2011 at 10:23 pm

Caro Rafael: Meus parabens pelo tempo e pelo relato da Maratona, maravilhosa
experiencia para um atleta ,que bom o que voce conquisto ,eso da valor
a todo esse esforço e motiva para mais desafios,grande abraço……..

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Jorge Niederauer

dezembro 10th, 2011 at 7:01 pm

Bueno. Conheci o Rafael na Prova Volta a Ilha de 2007. Guri magrinho, mas logo percebi que era raçudo. Notei o entrosamento com os mais velhos, todos com mais de quarenta e alguns beirando os cinquenta. Este foi um ponto positivo. Quando conheci o Pai do Rafael entendi o porquê do comportamento com os mais velhos, vinha de berço. Parabéns. Na sequência do tempo fui acompanhando o desenvolvimento deste rapaz como atleta, como estudante e como profissional. Gostava do que via: determinação, disciplina, concentração nos objetivos, uma pessoa extremamente focada. Por tudo isto, Rafael, não me surpreendo pelo teu excelente resultado na Maratona de Nova York. Mostraste todas as tuas qualidades e ainda jovem muito já conseguiste grandes vitórias. Tenho certeza que outras e importantes vitórias virão. Posso te dizer que a cada passo que damos aprendemos alguma coisa e tu aprendeste muito cedo que se quisermos alguma coisa devemos lutar por ela e termos a paciência necessária para alcançá-la, como a linha de chegada de uma Maratona. No mais, valeu Rafael…

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Elma

dezembro 11th, 2011 at 12:38 am

Lindo depoimento, Rafael! Parabéns pela sua disciplina, determinação e raça! E que venham muitas maratonas para você…abraços

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Prof. Carlos

dezembro 11th, 2011 at 9:58 pm

Linda prova, lindas palavras!!!! Acompanhamos e torcemos por voce pela internet.
Continue com essa disposiçao de que os tempos baixarao com certeza. Parabéns!!!

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Rafael Maioral

dezembro 12th, 2011 at 3:37 am

Olá pessoa, que bacana essa matéria!! obrigado Gabi e parabéns por todo o trabalho que vem sendo feito online. Agradeço a todos também pelas palavras em especial ao Jorge pelo depoimento, muito bacana.

Tentei descrever o que é correr em NY, mas a verdade é que isso é indescritível. É a prova que todo corredor deveria fazer ao menos uma vez na vida, pois é a prova no mundo que há o maior número de pessoas torcendo (2 milhões de espectadores estimados).

Eu treinei muito pra esse dia, foram mais de 2.500 km no ano, abri mão de muita coisa por causa dessa escolha e correr em NY é ver que tudo simplesmente valeu muito a pena.

Grande abraço a todos os amigos da Tribo!

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Val

dezembro 12th, 2011 at 9:36 am

Parabéns Rafael!!! …fiquei emocionada com suas palavras e consegui sentir a prova toda através do seu depoimento…e se eu já tinha vontade de fazer a Maratona de NY..agora então você conseguiu acordar o bichinho aqui dentro….abraços…Val

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